Uma carta ao seu filho: O pensamento transferista de Ben-Gurion em 1937

Em outubro de 1937, David Ben-Gurion escreveu uma carta ao seu filho Amos que desde então se tornou um dos documentos mais citados na historiografia do deslocamento palestino. A carta, guardada nos Arquivos Ben-Gurion da Universidade Ben-Gurion do Negev, foi composta imediatamente após a recomendação da Comissão Real Britânica de que a Palestina Obrigatória fosse particionada. Nela, Ben-Gurion articulou o que chamou de potencial da “transferência compulsória” — a remoção organizada da população árabe de qualquer futuro estado judeu — não como um problema moral, mas como uma oportunidade prática.

O historiador Nur Masalha, em Expulsion of the Palestinians: The Concept of ‘Transfer’ in Zionist Political Thought, 1882–1948 (Institute for Palestine Studies), documenta esta carta em detalhes e a situa dentro de uma tradição mais ampla. Masalha argumenta que a ideia de remover a população árabe indígena não foi uma improvisação de último minuto nascida do caos da guerra em 1948, mas uma vertente recorrente e debatida do pensamento político sionista que adquiriu uma nova explicitude quando a Comissão Peel forneceu cobertura política. Para as centenas de milhares de palestinos que seriam finalmente deslocados, o significado desta genealogia intelectual é direto e material.

A Comissão Peel e a legitimação da transferência

A Comissão Real Britânica de 1937 — comumente conhecida como Comissão Peel — foi o primeiro órgão oficial a recomendar o particionamento da Palestina Obrigatória. Crucialmente, também recomendou uma transferência populacional: residentes árabes do estado judeu proposto e residentes judeus do estado árabe proposto seriam, quando necessário, removidos por compulsão. A Comissão invocou explicitamente a troca greco-turca pós-Primeira Guerra Mundial como precedente.

Para Ben-Gurion, esta não foi uma imposição indesejada, mas um marco legitimador. Como Masalha documenta, ele disse à Executiva da Agência Judaica em junho de 1938 que era “a favor da transferência compulsória” e não a considerava “imoral”. Benny Morris, em The Birth of the Palestinian Refugee Problem Revisited (Cambridge University Press, edição de 2004), traça a mesma trajetória e conclui que Ben-Gurion e grande parte da liderança sionista passaram a considerar a transferência — qualquer que fosse sua forma precisa — como desejável e, sob as condições certas, viável. A edição de 2004 de Morris inclui substancialmente mais material de arquivo do que o original de 1988, valendo-se de registros militares e governamentais israelenses desclassificados para reconstruir como o pensamento transferista passou de aspiração política ao planejamento operacional.

Para as comunidades palestinas vivendo nos vales férteis e nas planícies costeiras demarcadas para um estado judeu, estas deliberações em salas de comissões coloniais e sessões executivas sionistas não eram abstratas. Elas descreviam o possível apagamento daquelas comunidades.

De aspiração política a ordens operacionais: Plano Dalet

Em março de 1948 — semanas antes do Mandato Britânico expirar e meses antes de estados árabes entrarem no conflito — a Haganá emitiu o Plano Dalet (Plano D), um conjunto de ordens operacionais governando a conduta militar em todo o território. O plano instruiu comandantes, em áreas designadas para controle judeu, a conduzir operações contra “centros populacionais inimigos”, que podiam incluir “destruição de aldeias (incêndio, explosão e mineração de ruínas)” e “expulsão da população para fora das fronteiras do estado”.

Morris reproduz e analisa estas ordens em profundidade em The Birth of the Palestinian Refugee Problem Revisited. Ele é cuidadoso ao notar que o Plano Dalet era primariamente um documento militar responsivo a pressões de segurança reais — território contestado, linhas de suprimento, intervenção árabe antecipada — mas também reconhece que sua lógica operacional criou as condições em que a remoção de civis palestinos se tornou sistemática. Aldeia após aldeia, da Galileia à planície costeira aos contrafortes de Jerusalém, foi despovada sob comandantes agindo dentro do marco que o Plano Dalet estabeleceu.

Os Arquivos Ben-Gurion e o Israel State Archives, ambos utilizados por Morris e Masalha, contêm os diários, atas de reuniões e correspondências através das quais Ben-Gurion acompanhou, encorajou e em alguns casos ordenou diretamente ações que resultaram em despovamento. O Institute for Palestine Studies publicou coleções de fontes primárias que permitem que esses registros sejam lidos ao lado do testemunho palestino e documentação em língua árabe.

Uma continuidade que o registro documentado sustenta

O que o registro de arquivo mostra — através dos Arquivos Ben-Gurion, do trabalho de Nur Masalha e da reconstrução exaustiva de Benny Morris — é uma continuidade de intenção que se estende da carta a Amos em 1937 às ordens militares de 1948. A palavra “transferência” mudou de registro ao longo daquela década: de uma ideia política flutuada na excitação do momento da Comissão Peel, a uma aspiração afirmada em reuniões executivas, a um resultado operacional incorporado nas ordens que comandantes de campo da Haganá receberam.

Para aproximadamente 750 mil palestinos deslocados durante a guerra de 1948 — uma cifra documentada pela UNRWA e consistente com estimativas tiradas do Palestinian Central Bureau of Statistics — esta continuidade não é uma questão de debate historiográfico. É a estrutura do que lhes aconteceu, às suas aldeias e ao mundo que conheciam.

Fontes

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