Uma Zona Militar Traçada em Torno de Comunidades Vivas

Em 1980, o exército israelense declarou aproximadamente 30.000 dunams das Colinas do Sul de Hebrom uma área militar fechada — Zona de Tiro 918. A declaração não recaiu sobre terras vazias. Espalhadas por aquelas colinas havia comunidades palestinas de agricultores e pastores cuja presença na área, segundo documentação coletada pela B’Tselem, é anterior ao Estado de Israel. Aldeias como Tuba, Maghayir al-Abeed, Jinba, Halaweh e Mirkez — conhecidas coletivamente como Masafer Yatta — continuaram existindo dentro da zona recém-traçada, seus moradores se movimentando entre habitações sazonais, cuidando do gado e cultivando encostas em terraços como sempre fizeram.

Por mais de quatro décadas, a designação de zona de tiro funcionou como um mecanismo lento de pressão: ordens de demolição contra casas, cisternas de água e painéis solares; restrições ao movimento; e tentativas militares repetidas de despejo que moradores e seus advogados desafiaram repetidamente em tribunais israelenses. Depois, em maio de 2022, esse amortecedor legal desabou.

A Decisão da Suprema Corte e O Que Ela Autorizou

Em 4 de maio de 2022, a Suprema Corte de Israel emitiu uma decisão que manteve a autoridade do Estado de fazer cumprir a Zona de Tiro 918 e abriu caminho para a transferência forçada de aproximadamente 1.200 palestinos de pelo menos oito aldeias dentro da zona. A corte aceitou o argumento militar de que os moradores não haviam estabelecido residência permanente anterior à declaração de 1980 — uma conclusão que os defensores legais palestinos e as próprias comunidades contestaram ferozmente.

Adalah — The Legal Center for Arab Minority Rights in Israel, que documentou a longa batalha legal, observou que a decisão efetivamente reverteu o ônus probatório: comunidades que viviam na terra por gerações foram obrigadas a provar sua presença a um sistema de tribunais operando dentro de um marco de ocupação militar. A decisão atraiu condenação imediata de órgãos de direitos humanos da ONU, com OCHA oPt advertindo que a implementação constituiria transferência forçada — uma violação grave do direito internacional humanitário sob a Quarta Convenção de Genebra.

Demolições, Deslocamento e Vida Cotidiana Sob Ameaça

Os meses seguintes à decisão trouxeram uma aceleração do que a B’Tselem já vinha documentando por anos: o desmantelamento sistemático do tecido físico da vida palestina em Masafer Yatta. As estruturas demolidas ou confiscadas incluíram casas familiares, currais, cisternas de armazenamento de água e sistemas de energia solar instalados pela organização de energia renovável Comet-ME — infraestrutura que, em uma área onde a Administração Civil Israelense há muito nega licenças de construção, representava o único meio viável de sustentar comunidades fora da rede elétrica.

Pesquisadores de campo da B’Tselem documentaram operações de demolição repetidas em que forças israelenses chegavam às aldeias, emitiam avisos de evacuação imediata e demoliam ou apreendiam estruturas em horas, deixando famílias sem abrigo. Em vários casos documentados pela B’Tselem, a mesma estrutura foi demolida mais de uma vez depois que moradores a reconstruíram.

O jornalista e ativista palestino Basel Adra, que cresceu em Masafer Yatta e cuja documentação da vida cotidiana sob essa ameaça é central para o filme premiado No Other Land (codirigido com o jornalista israelense Yuval Abraham), forneceu um dos registros mais sustentados em campo do que essas demolições significam no nível humano — famílias puxando pertences dos escombros, crianças vendo suas casas serem destruídas, comunidades calculando se devem reconstruir ou partir. Seu relato, publicado em parte através da +972 Magazine, coloca eventos de demolição específicos dentro da história mais longa da Zona de Tiro 918 e da pressão calculada que ela impõe.

A Arquitetura Legal Por Trás dos Despejos

Entender Masafer Yatta exige entender o sistema legal em camadas que governa a Cisjordânia ocupada. Sob ordens militares em vigor desde 1967, palestinos na Área C — aproximadamente 60 por cento da Cisjordânia sob controle militar e civil israelense total — precisam de licenças da Administração Civil Israelense para praticamente toda construção. Essas licenças são negadas em taxas extraordinárias. Os dados de longo prazo da B’Tselem sobre a Área C mostram que licenças de construção para palestinos são estruturalmente inacessíveis, garantindo que qualquer estrutura construída sem permissão seja perpetuamente vulnerável a ordens de demolição.

A Zona de Tiro 918 agrava isso: a designação militar fornece uma pista legal separada e paralela através da qual o Estado pode ordenar evacuação independentemente de qualquer estrutura específica carregar uma ordem de demolição. Como Adalah argumentou, o efeito cumulativo é um sistema no qual comunidades palestinas são tornadas legalmente precárias por design — sua presença reformulada como ocupação ilegal de terras que, sob direito internacional, permanecem como território palestino ocupado.

Os relatórios de Proteção de Civis da OCHA oPt consistentemente identificaram Masafer Yatta como uma das áreas de risco de deslocamento mais agudas da Cisjordânia, observando que a combinação de cumprimento da zona de tiro, expansão de assentamentos nas Colinas Sul de Hebrom circundantes e violência de colonos contra comunidades pastoris cria pressões convergentes que equivalem a um ambiente coercitivo.

O Que Permanece em Jogo

No momento em que isto é escrito, as comunidades de Masafer Yatta não foram completamente expulsas. Os moradores continuam a reconstruir, desafios legais continuam em vários fóruns, e a atenção internacional gerada em parte pela documentação de Basel Adra manteve o caso visível. Mas a decisão da Suprema Corte de maio de 2022 permanece em vigor. As 1.200 pessoas da Zona de Tiro 918 vivem sob uma ordem de despejo sem data de expiração — em terras que suas famílias trabalharam por gerações, aguardando o próximo veículo a chegar na estrada da encosta.

Fontes

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