O Cenário: Refugiados Palestinos nos Campos do Sul de Beirute
No verão de 1982, Sabra e Shatila eram bairros densos e empobrecidos na borda sul de Beirute — lar de dezenas de milhares de refugiados palestinos, muitos deles ou suas famílias deslocados da Palestina em 1948. Shatila havia sido estabelecido como um campo de refugiados formal sob administração da UNRWA, enquanto o distrito adjacente de Sabra havia crescido organicamente ao seu redor. Juntos, abrigavam uma população civil de famílias, moradores idosos, mulheres e crianças cujos defensores armados da OLP, sob um acordo intermediado pelos EUA, haviam saído de Beirute por mar apenas semanas antes, no final de agosto de 1982.
Essa saída foi negociada com o entendimento explícito de que a população civil restante seria protegida. O Instituto de Estudos da Palestina documentou como a força multinacional que supervisionou a evacuação da OLP havia se retirado de Beirute até 10 de setembro — deixando os residentes civis desarmados dos campos expostos. Em 14 de setembro de 1982, o presidente eleito do Líbano, Bashir Gemayel, líder da Falange, foi assassinado. As forças israelenses entraram em Beirute Ocidental no dia seguinte.
16 a 18 de Setembro: O Cerco e o Massacre
Na noite de 16 de setembro de 1982, unidades das Forças de Defesa Israelenses cercaram Sabra e Shatila e assumiram posições em telhados e em cruzamentos de estradas que dominavam os perímetros dos campos. Naquela mesma noite, combatentes da milícia Falange Libanesa — aliados de Israel — foram enviados para dentro dos campos. Eles permaneceriam no interior por aproximadamente 40 horas.
O que se seguiu foi documentado por jornalistas, investigadores da ONU e pela própria investigação do governo israelense. Robert Fisk, correspondente do Independent que entrou nos campos na manhã de 18 de setembro, descreveu o que encontrou em sua obra seminal Pity the Nation (1990): ruas repletas de corpos de civis, mulheres e crianças entre eles, mostrando sinais de execução sumária, mutilação e morte em massa. O relato em primeira mão de Fisk permanece como um dos registros de testemunha ocular mais citados do período imediatamente após o massacre.
Embora as forças israelenses não tivessem entrado nos campos durante o massacre, controlavam todas as saídas e pontos de entrada. O depoimento coletado na época indicava que oficiais israelenses nas posições circundantes disparavam flares iluminadores durante a noite — iluminando o campo para a Falange durante as horas de escuridão. De acordo com a Comissão Kahan, comandantes israelenses receberam indicações iniciais de que um massacre estava em andamento e não agiram para detê-lo.
As estimativas de vítimas variaram. A Comissão Kahan em si citou uma cifra de aproximadamente 700 a 800 mortos, enquanto fontes do Crescente Vermelho Palestino e outras fontes contemporâneas colocaram o número muito mais alto. A documentação da UNISPAL e fontes citadas pelo Instituto de Estudos da Palestina registram estimativas variando de 1.000 a 3.500 mortos. Os mortos eram principalmente civis palestinos; residentes xiitas libaneses de Sabra também estavam entre as vítimas. Porque muitos corpos foram enterrados em valas coletivas antes que uma contagem completa pudesse ser feita, um número preciso nunca foi estabelecido.
A Comissão Kahan: Responsabilidade Israelense e Responsabilidade Pessoal de Sharon
Sob intensa pressão doméstica e internacional, o governo israelense estabeleceu uma investigação oficial liderada pelo Presidente da Suprema Corte Yitzhak Kahan. O Relatório da Comissão Kahan, publicado em fevereiro de 1983, fez descobertas que foram notáveis em sua franqueza. Concluiu que líderes militares e políticos israelenses suportavam responsabilidade indireta pelo massacre ao facilitar a entrada da Falange nos campos e não conseguirem prevenir os assassinatos uma vez que os relatos chegaram ao comando israelense.
Mais significativamente, a Comissão constatou que o então-Ministro da Defesa Ariel Sharon suportava responsabilidade pessoal por desconsiderar o perigo à população civil quando aprovou a entrada da Falange. A Comissão recomendou sua destituição da pasta de defesa. Sharon renunciou como Ministro da Defesa, mas permaneceu no gabinete; ele mais tarde serveria como Primeiro-Ministro de Israel de 2001 a 2006.
A constatação da Comissão Kahan de responsabilidade pessoal contra um ministro da defesa em exercício pelas mortes de civis palestinos em um campo de refugiados representou um momento extraordinário de reconhecimento oficial — e, para muitos palestinos e observadores internacionais, um inadequado. Nenhum processo criminal se seguiu em Israel.
Resposta Internacional e a Questão da Justiça
Em 16 de dezembro de 1982, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a Resolução 37/123, que declarou o massacre um ato de genocídio. A resolução foi aprovada apesar da objeção de Israel e dos Estados Unidos. A UNISPAL arquiva o texto completo e o registro de votação desta resolução.
O ICRC, cujos delegados de campo entraram nos campos no período pós-massacre, documentou a escala de morte e as condições que encontraram. Tentativas de sobreviventes e famílias de buscar responsabilização em tribunais belgas sob legislação de jurisdição universal foram finalmente bloqueadas após a Bélgica alterar suas leis em 2003 sob pressão diplomática, antes de os procedimentos chegarem a uma conclusão substancial.
Para as famílias palestinas que perderam parentes em Sabra e Shatila — civis que haviam sobrevivido ao deslocamento de suas casas originais na Palestina apenas para serem mortos em um campo de refugiados — a questão da responsabilidade permaneceu aberta por mais de quatro décadas. O registro documentado daquelas quarenta horas em setembro de 1982 se mantém como um capítulo central na memória coletiva palestina e na conversa legal internacional sobre a proteção de populações civis em conflitos.
Fontes
- Relatório da Comissão Kahan (Comissão Estatal de Investigação Israelense, fevereiro de 1983) — conclusões sobre responsabilidade indireta e responsabilidade pessoal de Ariel Sharon
- Robert Fisk, Pity the Nation: The Abduction of Lebanon (1990) — relato de testemunha ocular do período pós-massacre
- UNISPAL — Documentação da ONU e Resolução 37/123 da Assembleia Geral (16 de dezembro de 1982): https://www.un.org/unispal
- Instituto de Estudos da Palestina — documentação histórica do período de Beirute de 1982 e estimativas de vítimas
- ICRC — relatórios de campo dos campos, setembro de 1982
- UNRWA — informações sobre o campo de Shatila e população de refugiados palestinos no Líbano