Uma Cúpula Nascida da Catástrofe: O Mundo Árabe Após 1º de Junho de 1967
Em junho de 1967, a ofensiva militar de Israel — conhecida por palestinos e árabes como a Naksa, o Recuo — resultou na ocupação da Cisjordânia, Faixa de Gaza, Península do Sinai e Colinas de Golã em seis dias. Centenas de milhares de palestinos foram deslocados pela segunda vez em uma geração. Os Estados árabes que haviam confrontado Israel foram despedaçados militar e politicamente. Foi nesta atmosfera de profunda perda e humilhação que chefes de Estado árabes se convocaram em Cartum, Sudão, entre 29 de agosto e 1º de setembro de 1967 — apenas dois meses após o cessar-fogo.
A cúpula de Cartum não foi um conselho de rejeitores desafiadores tramando outra guerra. Foi, como o historiador Avi Shlaim documenta em The Iron Wall: Israel and the Arab World, uma reunião de governos lidando com derrota catastrófica, explorando como recuperar território por meios políticos enquanto gerenciavam pressões internas para não parecer capituladoras. Compreender o que foi realmente decidido em Cartum — e o que não foi — é enormemente importante, porque a distorção deste registro tem sido usada há décadas para suprimir a agência diplomática palestina e árabe.
O Que a Resolução Realmente Diz: Parágrafo 3 e os “Três Nãos”
A frase “três nãos” — não à paz com Israel, não ao reconhecimento de Israel, não a negociações com Israel — tem sido repetida tantas vezes no discurso político ocidental e israelense que adquiriu o peso de fato estabelecido. É regularmente invocada para argumentar que os Estados árabes, e por extensão palestinos, categoricamente recusaram qualquer caminho diplomático após 1967, colocando assim responsabilidade exclusiva pelo impasse no lado árabe.
O problema é que esta formulação não aparece textualmente na Resolução de Cartum. A linguagem real do parágrafo 3 da resolução, conforme preservada nos arquivos da Liga Árabe e reproduzida pelo Instituto para Estudos Palestinos e pela coleção de documentos UNISPAL das Nações Unidas, afirma que os Estados árabes concordaram com “os principais princípios pelos quais os Estados árabes se guiam, a saber: não à paz com Israel, não ao reconhecimento de Israel, não a negociações com ele, e insistência nos direitos do povo palestino em seu próprio país.”
Mesmo levando esta linguagem pelo valor de face, a análise de Shlaim em The Iron Wall é instrutiva: a resolução deve ser lida em seu contexto diplomático completo. O mesmo documento explicitamente pediu por “esforços no nível internacional e diplomático” para eliminar as consequências da agressão israelense e para garantir a retirada dos territórios árabes ocupados. A cúpula autorizou contato continuado com partes internacionais, incluindo as Nações Unidas, e apoiou a via diplomática que em breve produziria a Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU (novembro de 1967). Esta não era a postura de um bloco que havia fechado todas as portas.
A Lógica Política por Trás da Linguagem
Avi Shlaim, baseando-se em registros desclassificados israelenses, americanos e britânicos junto com fontes árabes, argumenta em The Iron Wall que os “três nãos” funcionavam principalmente como uma salvaguarda política para líderes árabes enfrentando públicos domésticos que não aceitariam qualquer aparência de recompensação da agressão. O Presidente egípcio Gamal Abdel Nasser e o Rei Hussein da Jordânia — cujos países haviam perdido mais território — ambos, paradoxalmente, estavam entre os mais interessados em uma resolução diplomática. Dentro de semanas de Cartum, Hussein estava engajado em contatos secretos com oficiais israelenses, e Nasser estava sinalizando para Washington que poderia aceitar um marco de paz baseado na retirada israelense completa.
O Instituto para Estudos Palestinos há muito contextualiza a cúpula de Cartum dentro de uma tradição de sinalização diplomática árabe que governos ocidentais e israelenses frequentemente escolheram mal interpretar ou ignorar. Os “nãos”, nesta leitura, eram recusas em conceder reconhecimento unilateral ou assinar uma paz separada sem garantia dos direitos palestinos e retirada israelense — não um fechamento permanente e absoluto de qualquer acordo.
Para palestinos, a distinção não é acadêmica. O achatamento da Resolução de Cartum em um slogan de intransigência árabe apaga a demanda palestina real incorporada no próprio parágrafo 3: “insistência nos direitos do povo palestino em seu próprio país.” O povo cuja terra havia sido ocupada em 1948 e novamente em 1967, que estava vivendo sob governo militar ou em campos de refugiados, não estava ausente do texto — mas está quase sempre ausente da retratação ocidental disso.
Uma Distorção com Consequências Duradouras
O mito dos “três nãos” como uma recusa absoluta e irracional serviu uma função narrativa específica: posiciona Israel como o eterno buscador da paz e o lado árabe e palestino como congenitamente oposto a ela. A bolsa de estudos de Shlaim, juntamente com o registro documental mantido por UNISPAL e o Instituto para Estudos Palestinos, torna claro que a história é muito mais complicada — e que a Resolução de Cartum de 1967, lida cuidadosamente, reflete um mundo político em que palestinos e árabes estavam tentando afirmar direitos e alavancagem após uma derrota militar catastrófica, não simplesmente fechando a porta para a história.
Recuperar essa complexidade não é uma questão de reabilitar governos árabes dos anos 1960. É uma questão de precisão histórica — e de compreender como a supressão da agência política palestina tem sido sustentada, em parte, pela leitura deliberadamente errônea de documentos como este.
Fontes
- Avi Shlaim, The Iron Wall: Israel and the Arab World, Capítulo 9 (W. W. Norton, 2000)
- Liga Árabe, texto completo da Resolução de Cartum — Secretariado da Liga Árabe, lasportal.org
- Coleção de Documentos UNISPAL da ONU — un.org/unispal
- Instituto para Estudos Palestinos — palestine-studies.org
- Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU (22 de novembro de 1967)
Palestinian writer and researcher documenting life under occupation, drawing on primary sources from B’Tselem, Al-Haq, OCHA oPt, Amnesty, Human Rights Watch, and named scholars.